quinta-feira, 3 de novembro de 2016

PENSAR CERTO PARA SER FELIZ


As duas únicas certezas que temos a respeito de nossa existência são as de que um dia partiremos deste plano físico e a de que todos queremos ser felizes. Até hoje, não encontrei ninguém que tomasse uma atitude buscando a infelicidade. Talvez até apresentemos algumas ações e reações movidas pela insatisfação, culpa, melancolia ou remorso, mas nunca o fazemos com a finalidade de criar essas dores. Nossas ações, portanto, podem até ser resultantes desses males, mas, em sua maioria, todo ato humano, por mais nocivo que seja, visa à felicidade. Parece absurdo, eu sei, mas tente acompanhar o raciocínio até o final e talvez isso lhe pareça mais lógico.  
Sim, mesmo nas ações equivocadas e viciosas encontramos a busca pela felicidade. É preciso que entendamos, por mais difícil que pareça, que toda atitude negativa tem um fundo positivo. Por exemplo, aquele que rouba um objeto do seu semelhante, prejudica o próximo. No entanto, do ponto de vista do criminoso, essa é uma atitude positiva, pois visa sua própria felicidade. Agora, cuidado: nossas verdades podem se limitar ao universo de nossas loucuras. Ao dobrar a esquina, tais convicções se tornam absurdas. Ainda no caso do ladrão, sua atitude delituosa é positiva – apenas para ele, no nível de consciência em que se encontra. Para o resto do mundo, excetuando os demais ladrões, tal postura é criminosa, nociva e denota um estado de consciência primitiva. Assim é também conosco: fazemos escolhas que resultam em ações visando à felicidade, mas cada qual na faixa de pensamento em que se encontra no presente. Portanto, cuidado com as certezas de hoje. Um simples esclarecimento poderá revelar seu absurdo amanhã.
Daí a importância de amadurecermos permanentemente nosso pensamento, tanto no sentido ético-moral quanto intelectual. Se vivermos nesse constante esforço, certamente nos envergonharemos de muitas atitudes que tomamos há dez anos, quiçá na semana passada. Isso porque, uma vez expandida, a mente não retorna ao seu tamanho original. Seu crescimento é sempre progressivo e cada melhoria, ainda que numa área de conhecimento específica, poderá ser aplicada nos mais diversos setores da vida.
O desenvolvimento do pensamento pode ser comparado ao da musculatura. Quando nos matriculamos na academia, encontramos, basicamente, dois caminhos. O primeiro é o do esforço lento, paciente, disciplinado, associado a uma dieta rígida, cujos resultados levarão anos para chegar ao seu ápice. O segundo caminho, hoje muito escolhido, é o dos resultados rápidos, gerados pela ingestão de substâncias anabólicas que, se num primeiro momento geram um visual e força impressionantes, inexoravelmente trarão efeitos colaterais altamente prejudiciais com o passar dos anos, muitos dos quais, irreversíveis.
Para nos desenvolvermos intelecto e moralmente, o processo é o mesmo. O caminho mais fácil, anabólico, seria o de mergulharmos na vastidão de informações que o mundo nos oferece como se não houvesse amanhã. Feeds intermináveis das redes sociais, programas de TV sensacionalistas, inutilidades públicas e livros de autoajuda cheios de regras, fórmulas e frases prontas elencam alguns dos principais fatores que contribuem para o crescimento deformado das ideias. Basta conversarmos por alguns instantes com alguém que se alimenta dia e noite de tais conteúdos para notarmos que as informações que este ou esta detém apontam mil direções – que não desembocam em coisa alguma. Quantas pessoas que você conhece conseguiram criar e sustentar um projeto sólido de existência por meio de um livro de fórmulas ou viciando-se em Facebook? Claro, não estamos aqui a generalizar, tampouco radicalizar. As redes sociais são ferramentas incrivelmente eficazes quando manuseadas por pensamentos bem direcionados. O próprio foco já exclui naturalmente a possibilidade de vício, posto que nossas prioridades estão em outro lugar. Agora, quem acha que está por dentro de tudo só por que lê os feeds e assiste ao noticiário de tragédias está tão fortalecido internamente quanto os usuários de anabolizantes.
E os livros? Bem, essa questão é ainda mais séria. Não basta ler. É preciso, antes de qualquer coisa, saber filtrar, buscar fontes, esmiuçar, conhecer para criticar. Leu? Gostou? Então, pergunte-se: por que gostei? Se não conseguir formular em termos claros os porquês, corra atrás. Busque se compreender, conhecer suas próprias emoções e anseios. O que este livro me agregou, como posso mudar minha vida sabendo disso? Para os livros de que não gostamos, o processo é o mesmo. Em todos os casos, porque sim, não é resposta aceitável; continua valendo o alerta do filósofo, “conhece-te a ti mesmo”.
Outra coisa que tenho percebido nos meus amigos leitores é a preguiça de chegar ao fundo de todas as questões. Exemplo: talvez a obra de um certo autor não nos traga alguma resposta, mas de onde surgiram as suas ideias? Quem esse autor leu? Talvez os caminhos da mudança não estejam propriamente naquele livro, mas nas obras que o influenciaram. Nunca se dê por satisfeito, tente sempre saber mais. A mente também carece de exercício, nada de preguiça!
Não vou citar aqui autores que considero nocivos ou não, pois a ideia não é gerar divergências, mas instigar a crítica. Apenas uma dica: cuidado com o efeito vaga-lume. Grande parte da população ainda prefere o fácil, o pronto, o mastigado, e avançam como insetos famintos sobre as obras de frases feitas, as “cartilhas” de belos títulos, como se ali se encontrassem as profecias para uma nova era. E nesse ínterim, milhões de livros inúteis são consumidos ano a ano, engrossando as listas de mais vendidos. Pior que isso, nosso tempo é igualmente consumido. A vida é curta, mas não pode ser pequena, e até onde se sabe, nada que modifica a existência, conduzindo-nos a fantásticas e inovadoras experiências, vem facilmente. Conhecimento, tal qual a conquista de uma forma física saudável e perene, dá trabalho.


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

QUAL O TAMANHO DO SEU UNIVERSO?


Anos atrás, ouvi uma pergunta do meu amigo-irmão e educador, Shauan Bencks, que certamente a ouviu de alguém, que escutou do outro, que não ouviu de ninguém. A pergunta ressoa até hoje em minha mente como uma provocação constante à autorreflexão: Qual o tamanho do seu universo?
Todos nós, educadores, precisamos nos fazer essa pergunta, dia após dia, como um antídoto à pequenez, mesquinharia e conformismo. Antes de fazê-la é imperativo, contudo, questionarmo-nos: quem são os tais educadores? A resposta está no início do parágrafo: todos nós.
Da dona de casa ao varredor de rua, do comerciante ao funcionário público, do pedestre ao taxista, do pai ao professor, todos educamos, o tempo todo. Constantemente somos vistos, ouvidos, imitados, ainda que não o percebamos, fato que coloca em nossas mãos o maior instrumento de educação que se conhece: o exemplo.
Esqueça um pouco o seu redor. Pense que você é responsável por seu destino e que sim, alguém se espelha nisso. Sua vida é seu quadro-negro; sua obra, fonte de consulta de terceiros. E quando as pessoas encostam-se à sua prateleira, o que encontram? Há exemplos a serem seguidos, motivação, profundidade, humildade, compromisso com o bem e com a evolução de todos? Ou há apenas capas bonitas, livros que se resumem à orelha, que falam demais sem nada a dizer, e, ao serem fechados, deixam a sensação de que algo está faltando? Se esse for o caso, é bom correr. A vida, como disse Benjamin Disraeli e bem enfatizou Mario Sergio Cortella, é muito curta para ser pequena.
Todos nós, repito, somos educadores da humanidade. Assim, volto à pergunta: Qual o tamanho do seu universo? Ora, seu tamanho não é determinado no fervilhar das reuniões sindicalistas, nos gabinetes de governadoria, nas mesas de debates acadêmicos, nos bares, nos escritórios, tampouco nas impressões que fazemos questão de deixar nas redes, sempre parciais, poucas, uma versão diminuta do que somos ou do que poderíamos ser.
O tamanho do nosso universo não é determinado por nada que esteja fora de nós, mas pelo que agregamos dentro de nós. Vitória, derrota, alegria, tristeza, energia e cansaço são estados transitórios do nosso dia-a-dia, tão normais quanto passageiros. Esses estados dizem como estamos, não definem o que somos. Viver num estado de Eu Maior não significa perseguir uma felicidade constante e ininterrupta, numa voraz insistência em estar sempre bem, pois isso não é felicidade, é utopia e ilusão. Os obstáculos, a tristeza, a dúvida, as angústias, são estados curativos que viabilizam nosso crescimento. Se estão aí, é porque temos algo a aprender com eles, para amadurecer e seguir em frente. Logo, ser sério e retilíneo na vida também não pressupõe exibir uma face sisuda, fechada, de testa franzida, o tempo todo. Isso seria cair na mesma ilusão da felicidade permanente. Todos os estados emocionais, tanto positivos quanto negativos, são ferramentas, passagens, pontes que devemos atravessar para atingir um objetivo maior. Negar algum desses estados é negar nossa própria essência. Aceitemos nossas emoções de peito aberto e, pouco a pouco, aprenderemos a lidar melhor com cada uma delas, como um amigo com quem vamos criando intimidade e fortalecendo a confiança nas relações diárias. Em resumo, o estado de quem já se conhece melhor não é a euforia, tampouco a tristeza, é o equilíbrio.
Muito bem, aí resolvo olhar para mim mesmo e me descubro superficial, apequenado, conformado e acomodado – por escolha minhas e de mais ninguém, naturalmente. Daí vem a pergunta inevitável: se meu universo ainda é tão pequeno, como posso torná-lo maior? Que devo buscar para atingir esse objetivo magno? Simples: se lembrando de que ninguém cresce sendo servido, mas servindo. Somos maiores naquilo que deixamos de presente e positivo no outro.
O sentido da vida é a partilha. Daí a necessidade de agregarmos valores e conhecimentos os mais variados (conhecimentos profundos, não apenas informações irrelevantes, esteja claro). Como vamos dividir algo que não temos? Somos maiores quando nos tornamos motivos de boas recordações, de sorrisos ou de inspiração de alguém. E sempre é possível fazer mais e melhor para isso, desde que tomemos cuidado para não esbarrarmos na vaidade. Conheço, por exemplo, muitos acadêmicos que, uma vez empossados dos títulos de mestres e doutores, fazem questão de ministrarem suas palestras usando o máximo de erudição e complexidade, ainda que estas sejam destinadas a públicos leigos, apenas para ressaltar sua posição. É a síndrome da grandeza. É preciso lembrar que, sempre que alcançamos algum patamar social, como um curso superior, uma especialização ou mesmo um título de mestrado, tais privilégios são nada mais que ferramentas que devem nos ajudar a servir ainda melhor. Por que, ao invés de elitizarmos nossa fala, não a simplificamos para que um número ainda maior de pessoas possa se beneficiar com o que temos a dizer?
O contrário também existe. Se ainda sonhamos com melhores relacionamentos, salários, títulos, forma física, ou o que seja, costumamos colocarmo-nos nas raias da auto-sabotagem: é a síndrome de pequenez. Para este, tudo é difícil, tudo está longe, tudo é sofrido, então, para evitar a decepção, o indivíduo nem começa nada. Deus, aliás, nem lhe dá oportunidades para tanto. E não dá mesmo, nem deveria. Se queremos crescer, devemos fazer por onde. Deus, a Providência, a Vida, ou no que quer que você creia, não lhe dará o que deseja, apenas aquilo em que acredita. Busque caminhos; se não há caminhos, invente um, crie suas próprias oportunidades. Persiga seus sonhos, mas calma: não faça dos sonhos seus senhores. Lembre-se de que, como diz a canção, “sonhos não envelhecem”, mas podem mudar no meio do caminho. Muitas vezes a teimosia vem maquiada de sonho e nos impede de buscar novas perspectivas. Conforme avançamos na vida, os sonhos amadurecem, trocam de tamanho ou mesmo mudam de cara, e isso não significa que desistimos dos sonhos anteriores. Criar um novo objetivo em detrimento de outros não é fraqueza, mas sinal positivo de que novas estratégias estão surgindo durante a travessia. Quando a utopia e as viagens eufóricas cedem lugar ao planejamento, às metas possíveis e conquistas paulatinas, o sonho tende a se aproximar cada vez mais da realidade.
Aquele que ainda não descobriu seu caminho desconhece a si próprio. É preciso, antes de mais nada, empreendermos uma viagem ao nosso Eu interior, evitando apontar fatores externos como os culpados pela falta de sentido na vida. Aqui fora, devemos, sim, buscar referências, numa incessante pesquisa que constituirá o alicerce para nosso processo de renovação, que vai se processando por dentro. Se somos todos educadores, antes de ensinarmos algo a alguém, precisamos nos educar primeiro, nos preparar para isso. Do contrário, seremos, no máximo, orgulhosos querendo impor nosso ponto de vista. E ninguém neste mundo é capaz de ensinar aquilo que, efetivamente, ainda não vive.


quarta-feira, 18 de maio de 2016

AS 3 ILUSÕES SOBRE QUEM SOMOS E O QUE PUBLICAMOS




Identidade é o tesouro que nos circunscreve e permite que abramos – ou fechemos – uma janela em nossa própria direção, de maneira que todo e qualquer um possa saber quem somos. Em outras palavras: somos a resultante daquilo que oferecemos ao mundo para que este nos conheça. E o que temos oferecido?
Em tempos de tamanha interligação virtual, a grande questão é que podemos, aos olhos do próximo, ser qualquer coisa, o que quisermos, o que escolhermos. Claro que, num primeiro momento, poderíamos dizer: sou o que sou, pouco me importa o que as pessoas pensam de mim. Eis aí a primeira grande ilusão a respeito de nós mesmos.
Sim, o que pensam importa. Mais do que imaginamos, do que supomos. Somos seres gregários, emocionalmente frágeis e instáveis, e, mais do que uma dependência social de subsistência, temos ainda grande necessidade de nos vermos pelo olhar do outro. Simples provar: se não tivéssemos essa carência, não existiria a arte, a poesia, a literatura, a música, o teatro e tantas outras formas de expressão. Toda e qualquer manifestação artística pode ser resumida numa frase elementar, que poderia ter sido elaborada por uma criança: Eu estou aqui.
O alicerce sobre o qual as redes sociais se ergueram e estabeleceram seu monopólio sobre a atenção popular é semelhante. Se não tivéssemos necessidades, compartilharíamos milhões de coisas por segundo a troco de quê? Podemos ser vistos, lidos e ouvidos a qualquer momento, em qualquer lugar. Os ônus e bônus sobre isso vão das mais acaloradas (e geralmente despidas de fundamentos sólidos) discussões até a reflexão mútua, admiração ou simples alimentação da vaidade humana. Seja lá qual for a resultante, costumamos acreditar que, pelo fato de termos um corpo físico, uma identidade, uma conta pessoal, uma senha e tantos outros “meus”, pessoais e intransferíveis, somos responsáveis tão somente pela emissão de informações por nós selecionadas. Eis a segunda grande ilusão.
Em toda e qualquer ação, existe a troca e consequente transferência. Se escrevermos “carro” em nossa timeline, o interlocutor imediatamente plasmará em sua tela mental a imagem de um carro. Pode não ser o carro que imaginamos ao escrever – e provavelmente não o será –, pois, ao signo “carro” se unirá toda uma bagagem de vida que resultará na imagem criada por este interlocutor. A influência, entretanto, já está exercida, e todo esse processo acontece sutilmente, em milésimos de segundo, milhares de vezes por dia. Piscamos, influenciamos e somos influenciados.
Assim, nos cabe refletir e rever: o que estamos emitindo para que o outro nos conheça? Ou ainda: ao juntar num mesmo pacote todas as informações por nós emitidas, que tipo de ser humano se formará no olhar do outro? Isso é importante, SIM, uma vez que receberemos do mundo a resposta daquilo que emitirmos. Se enviarmos ao próximo mensagens destrutivas e anárquicas, não esperemos receber, por exemplo, feedbacks que elevem o espírito e favoreçam a autoestima. Se emitirmos sinais de superficialidade ou tola vaidade, certamente nos serão devolvidas mensagens igualmente efêmeras e superficiais, sempre ligadas a esses valores. Partindo desse princípio de ação e reação, poderíamos simplesmente filtrar o que publicamos e ajudarmos, portanto, a promover uma verdadeira revolução social por meio das redes, certo? Errado! Eis aí a terceira grande ilusão.
Transformar a rede é modificar a casca. Não mudamos, nem mudaremos nada de fora para dentro. A mentira a respeito do que somos e emitimos ao outro não se sustenta por muito tempo. Por exemplo: se o indivíduo não crê, tampouco vive imerso numa ideologia pacífica, publicará sete lindas frases e imagens sobre a paz, e, num momento de descuido, sepultará todas as tentativas anteriores com uma postagem destrutiva, revoltada ou rebelde. E por quê? Porque é isso o que ele, na verdade, é. Não o deixa de ser, apenas porque compartilha vídeos edificantes e frases de efeito. A transição ou mudança de informações enviadas ao outro deve se processar de maneira gradual, proporcionalmente à modificação do próprio indivíduo. Se ilude ainda mais quem acha que as redes mudarão alguma coisa nesse sentido. Elas só acentuam e destacam na foto o que já temos de melhor ou pior. O segredo da mudança de qualquer meio social se encontra justamente fora dele: no silêncio da leitura, nos minutos de reflexão, nos esforços pela correção de conduta, nos erros e repetições, nas tentativas de se reprogramar e amadurecer o pensamento. Eis aí nossa verdadeira busca. O resto é consequência.
As redes não são ilusões: iludido está o homem em tratá-las como alvo, meta, fim ou caminho. São recursos, nada mais. Se depositamos todo o nosso tempo, empenho e atenção em cima de um cavalo, pode ser que este venha a empacar ou sair correndo quando menos esperarmos. Redes são cavalos, somos condutores. A evolução efetiva só acontece quando depositada nos lugares certos: nas mãos, mentes e espíritos de todos e de cada qual.     


quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

FLORAIS


Depois que o Cravo e a Rosa fizeram as pazes, ainda precisaram de muito tempo para que a Natureza cumprisse seu mister de a todos os arranhões cicatrizar e cada pétala ser reposta no topo de seu devido caule, benta dos orvalhos que marcam o presente de cada amanhecer.
Passado esse tempo, que é devido a cada cura, ambos retomaram a conversa do ponto onde tudo se perdera.
“Você é bonita.”, diz o Cravo.
“Você é mais bonito!”, replica a Rosa.
“Digo que não sou. Todas as pessoas falam de você, linda Rosa. As flores-que-andam lhe usam como símbolo do encantamento. Você está nos olhos, nas bocas, nos livros. Sua beleza é cultuada e invejada por todas as flores.”
“Digo, lindo Cravo, que sou apenas aquilo que as flores-que-andam querem que eu seja. Em essência, sou mais simples que você. Não há no mundo quem tenha tão belas formas nas pontas de suas pétalas. Você é a verdadeira escultura da Flor-que-inventa-tudo.”
“Não sei, não sei. Às vezes gostaria de ser arrancado, sabe?”
“Para quê?”
“Ora, para ser admirado como você, linda Rosa. Ser colhido e colocado num belo buquê, arrancar suspiros e sorrisos de uma flor-que-anda, feliz e lisonjeada com minhas cores. Já imaginou?”
“Já.”
“Pois então! Não gostaria também?”
“E acontecer a mim o que aconteceu à Violeta na semana passada?”
“Que aconteceu?”
“Ora, lindo Cravo, nossa prima, Violeta, pensava assim. Todas as vezes que uma flor-que-anda passava por aqui, ela gritava com toda a força de seu caule: Eu, eu!!! Pois aconteceu que, na semana passada, ela foi colhida. Ficou tão orgulhosa, tão cheia de si. Faria parte de um buquê, seria venerada, elogiada, enfeitaria o mais lindo lar. Foi o que ouvi dizer que aconteceu. Por três dias. No quarto, a Violeta estava mais morta, seca e sem atrativos que mais outonal das folhas. Terminou espalhada ao solo, pisoteada pelos mesmos que a colheram e lhe destilaram efusivos elogios.”
“Não tinha pensado nisso. Que tristeza, tanto sacrifício por apenas três dias de glória.”
“Pois. Quão rápido não passam três dias? Imagine você, Cravo, o medo que sinto eu, Rosa, sendo tal símbolo de beleza, como diz, de ser colhida a qualquer momento?”
“Pensando assim, até eu começo a temer. Não haveria chance dessas colheitas cessarem?”
“Acho pouco provável. As flores-que-andam não se contentam em apreciar a beleza de longe. Precisam tocar, possuir, dominar, para se sentirem completos.”
“De fato, linda Rosa. São assim. Em nome de algumas horas de felicidade, esquecem-se das veias que nos alimentam. Enquanto há raízes, podemos nos abraçar por baixo da terra. Trocamos fluidos vitais com a Natureza, vivemos mais tempo.”
“Exato. As flores-que-andam acham que só aquilo que podem ver é real. Acham que vivemos longe umas das outras. Querem nos juntar num punhado de coisas iguais, como se fôssemos objetos. Nos despem com seus olhares e nos reduzem a enfeites de seus caprichos. Esquecem-se de que nossa beleza depende sobretudo daquilo que não se contempla a olhos nus. Nossas raízes ditam quem somos e como vivemos, lindo Cravo, não o encantamento de nossas pétalas, que brotam e caem com os ventos inevitáveis. De “longe”, unidos à terra, alimentamos abelhas, trocamos impressões com a atmosfera, enaltecemos espíritos que já sabem agradecer pelo que existe, não pelo que possuem. A partir do momento em que nos deixamos ser arrancadas, não somos mais flores, apenas enfeites.”
“Sim, agora me convenci disso. Dê cá um abraço.”
E tocaram levemente as pontas de suas raízes.
“Mesmo assim, digo que é mais bela, amada Rosa. Veja o quanto sabe da vida floral, como fala!”
“Digo ainda que é mais belo, amado Cravo. Aprende mais depressa no silêncio. Guarda seus predicados para que os meus apareçam no mundo. Quanta beleza há nesse gesto?”
“Não sei se concordo.”
E tornam a engrenar nova discussão. E a palestra se acalora até as raias do despedaçar. Ao longe, o tempo espera sua hora de reaver novas pétalas, enquanto uma criança qualquer atravessa o jardim, entoando uma cantiga de roda sobre cravos e rosas que brigam, sem desconfiar que no meio desse conflito, gasto por já tão cantado, caberia também o amor de uma vida inteira.

  

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

A CONCHA E O MAR


A manhã invadiu meus sentidos feito presente. Estava estendido, mas não totalmente, havia alguma coisa suave, de branda temperatura pousada a dois centímetros das minhas vistas ainda turvas. Conforme as retinas foram se ajustando ao claro do dia, meus braços se encheram de um tremor alegre, tendo sido você a primeira coisa que vi. Seus cabelos se espalhavam pelo travesseiro, como se estivessem boiando sobre a cama, seus olhos estavam pequenos, mais gateados do que já são. Os braços estavam para cima, o corpo de bruços, era uma nadadora naquele amontoado de cobertores, um frio para cada um de nós. Acho que fora tamanha a espontaneidade dos meus olhares, que os seus se abriram no mesmo instante. Você deu um sorriso quase imperceptível aos olhos de quem não ama, olhei para o seu corpo que estava meio a descoberto, a camiseta larga te fazia parecer uma criança que vestiu o pijama da mãe, a luz do sol maquiava seus cabelos com ouro, era bonito de se ver, fiquei atordoado de feliz com aquela imagem.
Pelas suas expressões mudas mas eloquentes percebi que sentíamos o mesmo. Ainda me era difícil acreditar que havíamos chegado na noite anterior, exaustos de viver, esvaziamos o porta-malas, comemos algo às pressas e caímos no mais profundo sono. Ao longo daquela madrugada, as mentes exaustas de mentar foram se desvencilhando dos nossos problemas, que quase nunca são nossos, geralmente são dos outros. Hora após hora, nossa vida foi abandonando os maldizeres, os intrusos, os bisbilhoteiros, os carnívoros, os traidores, os mentirosos. Foi-se também a pressa, a ansiedade, o medo da solidão, a solidão que amedronta, a ganância, a competição. Ficou tudo jogado pelo acostamento da estrada, e seus resíduos queimaram do lado de fora da porta, com o gear da madrugada. Ao acordarmos, sequer conseguíamos concatenar a ideia de que não havia nada naquele quarto a não ser nosso dia todo, que não pediria roteiro: o almoço poderia anteceder ao café da manhã, que por sua vez seria subsequente às horas de amor, ou não, talvez um passeio nas areias frias primeiramente, uma conversa longa, uma cantoria, talvez o silêncio, talvez coisa nenhuma até novo beijo de boa-noite.
Entre os milímetros do seu sorriso e a placidez dos meus olhos realizados, tudo isso aconteceu, sem que um minuto se passasse. Ainda sobrariam muitas horas para preenchermos com o incerto que não teme a si próprio, posto que é felicidade construída à base de espera, às custas de quem aprendeu na marra que paciência é o tijolo da vida.
Seu abraço quebrou o silêncio, seu bom-dia veio primeiro que o meu, acho que nos perdemos por mais umas três horas ali, a olhar para o teto, descrentes mas sabedores de que, mais do que amantes, éramos livres. E que logo ali, a poucas passadas, havia um mar à nossa espera, pronto para despejar em nosso leito sua miríade de possibilidades. Sorríamos por dentro. Éramos concha, madrepérola.



quinta-feira, 15 de outubro de 2015

DANIEL, MY BROTHER


A Síndrome de Down é um distúrbio genético causado pela presença de um cromossomo 21 extra, total ou parcialmente, na estrutura corporal. Geralmente, essa síndrome, identificada logo após o nascimento, vem associada a algumas dificuldades cognitivas. Não se trata, contudo, de uma doença, e, ao contrário da maioria das patologias consideradas normais, como egoísmo, má-educação, vaidade, orgulho e suas variações, a Síndrome de Down não é contagiosa.
Tive a oportunidade de aprender um pouco mais com um portador dessa síndrome há alguns anos letivos, quando, ao iniciar minhas aulas de inglês no quarto ano F, conheci o Daniel. É verdade que tenho outros alunos com quadros semelhantes, e comumente me afeiçoo a eles, talvez por ter um irmão autista. Pelo Daniel, no entanto, senti, desde o princípio, um cuidado especial, sobretudo após, ainda em início de carreira, receber dele minha primeira grande lição sobre o verdadeiro papel de um educador.
Algumas semanas de aula já tinham transcorrido, quando resolvi investir num trabalho diferenciado. Desenhava nos cadernos do Daniel tudo o que ensinava aos demais alunos na lousa. Se a aula tratasse de numerais, ilustrava vários deles em forma de bichos, objetos. Se fosse sobre cores, enchia o caderno do Daniel de figuras coloridas, agachava-me ao seu lado e calmamente pedia para que ele repetisse tudo o que estava escrito. E ele, com sua dicção malformada, sorria um sorriso vago mas feliz, e repetia, palavra por palavra. Parecia que, pela primeira vez, aquele menino doce sentia-se, antes de tudo, um igual.
Eu nunca acreditei que ele absorvesse alguma coisa, quando, num dia, ao me despedir da turma e partir para outra sala, tive a surpresa. Já estava à porta quando, lá do fundo, Daniel ergueu a mão direita e gritou: Bye, teacher!, sorrindo na minha direção. E, sem que ele suspeitasse, um mundo novo se abriu à minha frente e meu coração se encheu de uma coisa que ainda não tem nome inventado. Naquele momento, Daniel celebrou comigo a felicidade que senti ao encontrar, enfim, um lugar no mundo: meu lugar até hoje.
Manuel Bandeira disse uma vez que quereria seu último poema como a paixão dos suicidas que se matam sem explicação. Fernando Sabino afirmou que quereria sua última crônica pura como um sorriso. Quanto a mim, assim eu quereria meu último post: sincero como um abraço do Daniel; pleno como aquela despedida.

domingo, 9 de agosto de 2015

OH, FATHER

Onde é que você anda por agora, quando eu preciso de você? Onde fica a sua casa, quais ouvidos ouvem a sua voz? Agora que todas as coisas estão estabelecidas e sou obrigado a olhar para dentro e perceber que não passo de uma estrada que sai do nada e desemboca em coisa nenhuma, onde? E pior, não faço idéia de onde fica esse tal de paraíso, lugar onde provavelmente sobrem respostas e bons conselhos.
Nas horas em que as luzes abraçam minha consciência com o breu da dúvida, a vida não vai para frente ou para trás, não sei quem sou, nem se já fui em algum tempo, onde está você, para não deixar a verdade faltar? Onde a segunda opinião, a mão na cabeça, a piada suja, a piada limpa, o riso? O conselho.
De vez em quando eu penso que a culpa foi sua. Você podia ter fumado menos, bebido menos, falado mais, ainda que fosse de futebol, eu não ligaria, porque o que a gente precisa é de um porto seguro, mesmo que as cores não combinem muito com o que planejamos no papel. Não passamos de crianças, você sabe, vem a avalanche, o tempo, os filhos, os netos, e a verdade é uma só, somos e seremos crianças.
Depois de um tempo pensando, imagino que a culpa seja minha mesmo, porque fiquei mudo quando havia tanta coisa a dizer, e agora o mundo me perfura a alma de perguntas, as quais àquele tempo eu mal sonhava que existiam.
Trabalho, casa, contas, família, consciência, amor, evolução, futebol, livros, discos, amigos, corpo, aulas, mente. É muita coisa para uma criança só, e você me apronta de deixar o enredo pela metade; minha bicicleta ainda tem rodinhas, cambaleia. Na hora de dormir as perguntas voltam todas, eu choro de dúvida, e a porta nunca se abre, você não acende a luz. Ninguém acende a luz.
Ou talvez seja exatamente essa a ordem das coisas, o desejo do Inventor. Que a gente caia sentado, olhe para os lados e encontre no vazio o anteparo para as pernas, que, inseguras, retomam os passos com a mesquinhez e falta de paciência que nos é peculiar. Mas sempre em frente, ainda que aos trancos. Enfim.
Sinto sua falta e não há nada de lírico nem literário nisso.